Falar de cultura brasileira é falar de religião

Cartaz da Escola de Samba Mangueira para o Carnaval 2020.

Quem, mesmo sendo ateu, nunca disse ”se deus quiser” para expressar “tomara que dê certo”? ou soltou um „deus me livre“ para uma situação indesejada? 

Em interjeições, a sagrada família também é bastante evocada. Sempre ouvimos “Nossa”! ou “Nossa Senhora!”, ou até “Meu pai do céu!”, “Jesus amado!”, “Benza deus” ou até mesmo um “Credo!”. Em situações mais inusitadas, de susto ou espanto, pode ser que alguém solte um “Jesus, Maria, José!”, ou talvez ainda saia um ”Misericódia!”, “Virgem Santíssima!”, “Pelo coração de Maria”! ou, mais performático, dizem “Valha-me Deus Nossa Senhora” seguido de um sinal da cruz. Essa religiosidade popular também faz-se presente em roupas e amuletos. É comum encontrar quem que leve consigo a imagem de algum santo protetor na bolsa ou na carteira (eu mesmo tenho uma imagem de São Judas Tadeu), ou use um colar, um adereço. Outros usam camisetas, seja de pertencimento a algum grupo religioso, ou simplesmente estilizadas com alguma iconografia pop. Não raro, vemos muitas estampadas simplesmente com a palavra „Fé“, um conceito central no sistema de interpretação de mundo dos brasileiros. Por heterogêneos que sejam as religiões e seus seguidores, a Fé é o ponto comum, onde as pessoas se agarram em momentos de adversidade, dificuldade, desejo e ligação com o mundo místico.

É interessante observar que em várias circunstâncias, essa religiosidade cotidiana mistura-se profusamente a festividades pagãs. O maior exemplo disso é o carnaval. Em 2020, as Escolas de Samba do Rio de Janeiro não economizaram nas referências à religiosidade brasileira. Um dos desfiles mais elogiados foi o da Mangueira, que levou a Marquês de Sapucaí a refletir sobre como seria a vida de Jesus Cristo se ele nascesse nos dias de hoje, negro, numa comunidade carioca. Luxuosa e exuberante, a Mangueira colocou sob os holofotes diversos problemas sociais do Brasil contemporâneo, como o extermínio da população negra e periférica, a intolerância, o charlatanismo e o populismo religiosos. Um dos versos do samba enredo faz alusão ao presidente Jair Bolsonaro, cujo segundo nome “Messias” teve como marca de sua campanha eleitoral um gesto de arma com as mãos.

Bolsonaro foi eleito com amplo apoio dos evangélicos, embora sua postura não condiga com valores cristãos fundamentais. Os evangélicos, por sua vez, são representados no congresso pela Bancada da Bíblia, que, junto com as Bancadas do Boi (Agropecuária) e da Bala (Militares) formam a ala conservadora do Poder Legislativo. A Bancada da Bíblia é composta por pastores de igrejas evangélicas, responsáveis por uma lucrativa indústria da fé, que envolve rádio, televisão, gigantescos templos e muito dinheiro. A ascensão dos evangélicos no tabuleiro político brasileiro reflete uma mudança no perfil religioso da população que tem migrado da Igreja Católica para igrejas evangélicas e neopentecostais. .

A atuação da ala evangélica no governo é alvo de crítica e sarcasmo em programas de humor. O comediante Gustavo Mendes, por exemplo, faz uma sátira à ministra evangélica Damares Alves e suas declarações estapafúrdias. Já o grupo humorístico Porta dos Fundos foi alvo de uma grande polêmica, e até de um atentado a bomba, devido a um especial satírico sobre a vida de Jesus. Cultura inútil: na Internet circula uma paródia de “This is the Rhythm of the Night”, hit da cantora Corona nos anos 90, entitulada “Jesus expulsa o Satanás”. Por associação, lembremos do hit carnavalesco “Na casa do senhor, não existe satanás” eternizado pela banda Chiclete com Banana.

Esses são casos em que sobretudo valores cristãos e as figuras públicas que dele se valem são tratados de maneira jocosa e crítica. Porém, na Música Popular Brasileira espiritualidade é coisa séria. Artistas como Jorge Ben Jor, Maria Betânia, Clara Nunes e Vinícius de Morais celebraram os orixás no zênite das décadas de 1960 e 70. Atualmente, Xenia França e Mc Tha destacam-se como representantes do afrofurismo, trazendo para suas músicas e vídeos elementos religiosos de matriz africana. Sem falar nos inúmeros folguedos, como o Maracatu, o Congado e A Folia de Reis, que remetem a toda uma ancestralidade espiritual. E, não menos importante, vale mencionar a expressiva cena de White Metal no Brasil.

Esse é um pequeno recorte da complexidade do assunto que trataremos nesse semestre. Em posts quinzenais, lançaremos um olhar sobre os vários espaços, momentos e pessoas onde toda uma força mística é tecida no ambiente brasileiro. Faça os exercícios, releia o texto e escreva nos comentários quais temas mais te interessam. Não deixe de acompanhar as postagens. A próxima será sobre a espiritualidade dos povos indígenas. Não perca!

Publicado por Júlio

Professor de português para estrangeiros no Instutito de Romanística da Universidade de Hamburgo, Alemanha.

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